Você vai lembrar de mim toda vez que beijar uma boca que não é a minha. Você vai lembrar de mim toda vez que andar pelo Centro. Você vai lembrar de mim toda vez que passar em frente ao Teatro Municipal. Você vai lembrar de mim toda vez que ficar bêbado na Augusta. Você vai lembrar de mim toda vez que ler um poema do Fernando Pessoa. Você vai lembrar de mim toda vez que ler a palavra semiótica. Você vai lembrar de mim toda vez que visitar um sebo. Você vai lembrar de mim toda vez que ver uma lomo. Você vai lembrar de mim quando entrar em casa. Você vai lembrar de mim em noites frias. Você vai lembrar de mim em noites quentes. Você vai lembrar de mim dentro de você. Você vai lembrar de mim toda vez que estiver de ressaca. Você vai lembrar de mim toda vez que for à praia. Você vai lembrar de mim toda vez que comer paella. Você vai lembrar de mim sempre que for a alguma livraria. Você vai lembrar de mim toda vez que ouvir Radical Face. Você vai lembrar de mim sempre que ouvir falar de Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Clarice Lispector ou Mario de Andrade. Você vai lembrar de mim sempre que achar que está perdido na vida. Você vai lembrar de mim em certas datas. Você vai lembrar de mim todo natal. Você vai lembrar de mim no meu aniversário. Você vai lembrar de mim no seu aniversário. Você vai lembrar de mim quando jogar Mario. Você vai lembrar de mim quando estiver em algum barzinho entediante com gente chata. Você vai lembrar de mim quando discutir com gente arrogante. Você vai lembrar de mim quando pensar na Capitu. Você vai lembrar de mim quando seus olhos encontrarem com os meus em alguma esquina. Você vai lembrar de mim quando for a alguma boate. Você vai lembrar de mim quando ver cangurus. Você vai lembrar de mim quando ver ursos. Você vai lembrar de mim quando ver suricates. Você vai lembrar de mim quando ver coelhos. Você vai lembrar de mim quando corrigirem seu português. Você vai lembrar de mim toda vez que usar Ç indevidamente. Você vai lembrar de mim todas as noites antes de deitar. Você vai lembrar de mim mesmo quando não quiser admitir isso pra si mesmo. Você vai lembrar de mim quando mais achar que eu não significo mais nada. Você vai lembrar de mim quando deitar em algum gramado e ficar olhando o céu. Você vai lembrar de mim quando mentir pros seus pais. Você vai lembrar de mim quando usar drogas. Você vai lembrar de mim quando fizer aquele jogo de quem-ri-primeiro. Você vai lembrar de mim quando falarem sobre feminismo. Você vai lembrar de mim quando falarem sobre esses vândalos, baderneiros e maconheiros da USP que não querem saber de estudar. Você vai lembrar de mim quando ouvir músicas bonitas. Você vai lembrar de mim quando for assaltado. Você vai lembrar de mim quando estiver indo embora de manhã de algum lugar. Você vai lembrar de mim quando estiver triste. Você vai lembrar de mim quando ver a imagem de uma âncora. Você vai lembrar de mim sempre que se deparar com algum livro bonito. Você vai lembrar de mim quando se deparar com máquinas de escrever. Você vai lembrar de mim quando ouvir algum LP. Você vai lembrar de mim quando jogar truco. Você vai lembrar de mim quando gozar quatro vezes em uma única noite. Você vai lembrar de mim quando alguém chorar por você. Você vai lembrar de mim quando alguém te fizer mal. Você vai lembrar de mim quando achar que não poderia estar mais feliz. Você vai lembrar de mim quando ouvir Nirvana. Você vai lembrar de mim quando ver alguém cheio de piercings. Você vai lembrar de mim quando ver alguém com cabelo colorido. Você vai lembrar de mim quando ver algum hippie. Você vai lembrar de mim quando jogar Zelda. Você vai lembrar de mim quando ler Caio Fernando Abreu. Você vai lembrar de mim quando te fizerem gozar em cinco minutos. Você vai lembrar de mim quando transar em locais proibidos. Você vai lembrar de mim quando ver flores bonitas. Você vai lembrar de mim quando passar perto de algum lírio. Você vai lembrar de mim quando exigirem que você sinta algo que você não está sentindo no momento. Você vai lembrar de mim quando te convidarem para fazer algo completamente imprudente e irresponsável. Você vai lembrar de mim quando ver alguém usando jeans rasgado. Você vai lembrar de mim quando for atacar a geladeira de madrugada. Você vai lembrar de mim quando for em um restaurante japonês. Você vai lembrar de mim quando alguém morrer. Você vai lembrar de mim quando alguém estiver chorando inconsolavelmente do seu lado. Você vai lembrar de mim quando mentirem pra você. Você vai lembrar de mim quando disserem que te amam mais do que qualquer coisa no mundo. Você vai lembrar de mim quando falarem da França. Você vai lembrar de mim quando falarem da Inglaterra. Você vai lembrar de mim quando falarem de São Paulo. Você vai lembrar de mim quando acenderem um cigarro depois de transar com você. Você vai lembrar de mim toda vez que pensar no quanto eu só queria sentir que eu era passível de ser amado incondicionalmente.
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terça-feira, 23 de abril de 2013
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Open fire
Toda vez que eu penso em algumas coisas, é como se eu me colocasse encostado em um muro e a minha memória me fuzilasse. E eu fico triste e choro tanto, tanto. Mas não quero melhorar, não quero sair dessa tristeza – ou corro o risco de modificar completamente o que eu sou. E eu sou uma pessoa triste. Eu me tornei triste e permaneço triste. O que vai ser de mim se eu melhorar? O que vai ser de mim se eu parar de chorar, de lembrar, de me colocar sob tantas torturas hediondas? Eu não sei ser feliz e sorrir o tempo inteiro. Eu não sei mais sustentar meu olhar. Eu não sei mais achar que o tempo está passando rápido ou devagar, porque no fundo tanto faz. O que eu sei é sentir a dor de cada bala do meu próprio pelotão de fuzilamento me alvejando.
terça-feira, 16 de abril de 2013
Aquele olhar
Essa cidade nem é tão grande assim, se você for pensar. Em qualquer esquina suja eu posso acabar esbarrando contigo e naquela rápida e dardejante troca de olhares reviver tanta coisa que eu já nem lembrava mais que ainda me fere. É aquele olhar que mira no fundo da alma, que arrebenta todas as nossas veias, que engrossa o sangue, que quase faz as pupilas explodirem como pequenas supernovas tão particulares. É aquele olhar que tem o som da tua voz, que eu não ouço há tanto tempo. É aquele olhar que demora no meu, mas que dura menos de um segundo. É aquele olhar que deita suavemente no meu rosto como as tuas mãos costumavam fazer.
É aquele olhar que olha sem ver. Porque ver é lembrar e lembrar é ferir. Aquele olhar que fica cego quando acaba.segunda-feira, 15 de abril de 2013
O teu nome
não importam os cortes
não importam as feridas
não importa quantas vidas passem
não há tempo que cure.
em todas as flores
em velhas canções
em cada relâmpago
há um átomo seu.
nas trevas que mais me assustam
nas luzes que mais me cegam
está teu nome
com todas as letras.
com todas as letras.
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